| A História do Conservatório |
Localizado na região central de Pouso Alegre, com 3.943 m2 de área construída, o Conservatório Estadual de Música Juscelino Kubitschek de Oliveira é motivo de orgulho, não apenas para os alunos, professores e funcionários da escola, mas para toda a sociedade pouso- alegrense. Nele nasceram vários grupos musicais, de teatro, orquestras, corais e cantores solistas, que até hoje levam para todo o país a arte que começou dentro da escola.
Para chegar até os dias de hoje, alguns obstáculos tiveram que ser superados. O primeiro deles, em 1951. Naquele ano, o então governador de Minas Gerais, Juscelino Kubitscheck de Oliveira, baixou um ato criando seis Conservatórios Estaduais de Música, que seriam instalados em diferentes regiões do Estado.
A instalação de um desses conservatórios em Pouso Alegre só foi possível pela intercessão do Deputado Estadual Cônego Aurélio Mesquita junto ao Governador, com quem mantinha laços de amizade, além de relações políticas. O Conservatório de Pouso Alegre foi criado pela Lei nº 825 de 14 de dezembro de 1951.
Com a aprovação de J.K., faltava ainda um local para o funcionamento da escola. Depois de algumas negociações foi alugado um imóvel na Praça João Pinheiro, nº 114. Este foi o primeiro endereço do Conservatório, que mais tarde viria a funcionar no prédio à rua Francisco Sales, onde está atualmente.
| INAUGURAÇÃO |
O Conservatório Estadual de Música de Pouso Alegre (Cempa) foi inaugurado em 1954. Foram três dias de festas, iniciadas em uma sexta-feira, dia 28 de maio, com as músicas da Orquestra Sinfônica e a Banda da Polícia Militar do Município.
O sábado foi marcado por desfiles, concertos e homenagens às autoridades presentes à comemoração. Chegou, então, o dia mais esperado, 30 de maio de 1954, um domingo. Depois de aterrissar no aeroporto e seguir até o centro de Pouso Alegre, acompanhado de comitiva, para inaugurar o Conservatório que leva seu nome, o Governador do Estado, Juscelino Kubitscheck de Oliveira, desceu do carro e seguiu a pé até o palanque ao lado da Catedral. Depois do desfile de estudantes e da santa missa celebrada pelo padre Gervásio Cunha, o Governador mineiro concretizou a inauguração..
| INÍCIO DAS ATIVIDADES |
Após o ato solene, o Diretor do Conservatório, mineiro de Belo Horizonte, professor Levindo Lambert, a pedido de autoridades, indicou o professor de música, Tenente João Soares de Souza, para assumir a direção do Cempa.
Quando João Soares assumiu a direção, a casa contava apenas com três funcionários – Benedito de Melo (Secretário), Maria Rita de Paula (Recepcionista) e João Francisco (Servente) – e quatro professores – Lucila Faria de Oliveira (Piano), Evódia Firmo M. Ribeiro (Canto), Lourdes Brigagão F. Franco (Canto Coral) e Germano Gelmini (Violino). Além da função de Diretor, o Professor João assumiu também a cadeira de Solfejo, Ditado e Teoria, por designação do Governo do Estado.
A preparação dos candidatos começou no dia primeiro de setembro de 1954, e no final do ano ocorreu a seleção para matrícula na primeira série. As aulas tiveram início em fevereiro do ano seguinte. Eram pouco mais de 30 alunos. A princípio foram ministradas apenas aulas de Piano, Violino e Canto. Aos poucos foram introduzidos os cursos de Flauta, Clarinete, Violoncelo, Piston e Trombone.
Para substituir o Diretor João Soares de Souza, que iria retornar a Belo Horizonte para se reformar como Capitão da Polícia Militar Mineira, foi realizada em 24 de fevereiro de 1958 a primeira eleição para a direção do Cempa. Assumiu o cargo a professora Lucila Faria de Oliveira, que permaneceu à frente do Conservatório apenas quatro meses. Para comandar a escola foi então empossado o Vice-Diretor, Benedito de Melo, que ficou no cargo até a posse da professora Horma de Souza Valadares Meireles, em 6 de junho de 1961.
Nessa época o Cempa tinha 41 alunos e cinco professores. Havia um piano, três salas de aula e uma biblioteca com três livros: um dicionário, um cancioneiro e um hinário. Para reverter esse quadro foram contratados professores, vindos em sua maioria de São Paulo; o acervo de instrumentos e materiais pedagógicos foi ampliado, e desde então a escola vem se expandindo a cada ano, tanto em número de alunos, professores e funcionários, como em acervo de instrumentos e materiais de ensino.
| AS PRIMEIRAS APRESENTAÇÕES |
A primeira apresentação em público dos alunos do Conservatório aconteceu no dia 4 de junho de 1956 em uma audição geral para toda a comunidade pouso alegrense. Elas não pararam. De Pouso Alegre a música do Conservatório espalhou-se por todo o Estado, até “contaminar” o país. Em 1966 o Coral de Cempa apresentou um recital em Belo Horizonte e outro em São Paulo, na Tv Tupi. No ano seguinte o coral fez novas apresentações em Londrina e no Paraná. Em 1968 esteve em Porto alegre onde gravou um recital para a Tv Gaúcha. A partir daí, começou a promover recitais em várias cidades de nosso Estado acompanhando a onda de festivais que surgia no país.
Em outubro de 1968 o Cempa realizou seu primeiro Festival de Música Erudita, o Festival Debussy. Paralelamente ao festival foi promovido o 1º Concurso Nacional de Piano, que trouxe à cidade músicos, concertistas e artistas famosos de vários Estados do Brasil, da Rússia, Alemanha e França.
No ano seguinte o Cempa realizou o 2º Festival de Música Erudita Schumann-Mignone e o 2º Concurso Nacional de Piano. Em novembro de 1970 o sucesso dos Festivais de Música Erudita se repetiu, e foi realizado o 3º Festival Beethoven-Vila Lobos e o 3º Concurso Nacional de Piano. Tanto trabalho levou o Conservatório de Pouso Alegre a ser escolhido como uma das cinco melhores escolas de música do país em 1970. A pesquisa foi realizada por músicos da rádio Jovem Pan de São Paulo e concedeu à escola o título de Conservatório Modelo do Estado e o Cartão de Prata, como Estabelecimento do Ano. O quarto e último Festival de Música Erudita e o Concurso Nacional de Piano aconteceram em 1971.
| NOVA SEDE |
Depois de 24 anos funcionando na Praça João Pinheiro, o Conservatório de Música de Pouso Alegre, foi transferido parcialmente para o prédio à rua Francisco Sales, antigo Colégio Santa Dorothéia das irmãs dessa Congregação, dividindo o espaço com a Escola Estadual Ana Augusta de Faria e um curso pré-vestibular do Colégio Anglo. O primário musical continuava no prédio da Praça João Pinheiro, o ginásio e os cursos técnicos funcionavam na sede atual.
A construção do prédio da Francisco Sales começou em 1913, para abrigar o Instituto Santa Dorothéia. O projeto arquitetônico foi elaborado pelo arquiteto paulista Mário Gissoni e construído no estilo neoclássico, com detalhes barrocos internamente Tem três pavimentos que eram usados como internato para moças.
Em agosto de 1984, foi desapropriado pelo Estado, passando a ser ocupado pelo Cempa. No mesmo ano Horma de Souza Valadares Meirelles deixou a direção da escola, que contava então com 1.529 alunos, 38 funcionários, 44 salas de aulas e 13 salas de administração. Na biblioteca havia um acervo de 2.860 livros, uma discoteca de 688 discos e fitas, 211 instrumentos musicais (17 pianos, 43 instrumentos de cordas, 41 de sopro, 106 de percussão e quatro organetas), 15 aparelhos audiovisuais e aproximadamente 700 peças de mobiliário escolar.
ainda em 1984 assumiu a direção da escola a professora Wilma Andery Fanuchi. Durante sua gestão o Cempa enfrentou seu maior desafio: o incêndio.
| O INCÊNDIO |
Era madrugada aproximadamente 3h45 min do dia 9 de março de 1987 -segunda-feira- quando o porteiro João Benedito de Oliveira Tosta escutou dois estalos fortes, parecidos com explosões. Ao verificar deparou-se com as chamas, que já consumiam uma das entradas da escola. Depois de acordar o professor de violino Dalton Ferreira Nunes, que veio de Campinas, e estava instalado temporariamente em uma sala do segundo andar do prédio, o vigilante ligou para a polícia.
O fogo se espalhou rapidamente pelo prédio, consumindo os móveis e as papelarias. Do lado de fora era grande a aglomeração de vizinhos, curiosos, alunos e professores. O público estava diante do mais triste espetáculo já presenciado no Cempa. O som dos pianos caindo mostrava a proporção de uma grande tragédia.
Enquanto os bombeiros tentavam apagar o incêndio, dois ex-alunos arrombaram uma das portas e entraram no prédio, indo direto para o arquivo de instrumentos. Formou-se uma corrente humana e os instrumentos passaram de mão-em-mão até estarem em segurança.
O trabalho do Corpo de Bombeiros durou quase 10 horas, e contou com a ajuda do 20º Batalhão de Polícia Militar e do 14º Grupo de Artilharia de Campanha do Exército. Quando o fogo começou a ser controlado, uma triste notícia: a água havia acabado, e como não havia hidrantes na cidade, a saída foi buscá-la no rio Mandu, 2.500 metros de distância do Conservatório. Nesse precioso espaço de tempo, as chamas recuperaram a força e avançaram sobre o assoalho, todo de madeira, cortinas e instrumentos.
Do prédio de 60 anos só restou o esqueleto. Das paredes externas e do alicerce ficaram apenas tijolos e cinzas. A memória da escola, que estava registrada em livros de atividades, contendo todos os trabalhos anuais e ainda um arquivo iconográfico, com mais de 700 fotografias, desde sua criação, foi destruída pelo fogo. Cerca de 100 atividades desenvolvidas desde a inauguração do Cempa até o ano de 1978 também se perderam.
Na época o Conservatório tinha 20 pianos, quatro foram queimados: um, de cauda inteira, um de meia cauda e dois de armário. A escola realizava exposições, e cada artista deixava uma obra para o seu arquivo. Só para se ter uma idéia do prejuízo, no ano anterior ao incêndio foi realizada uma mostra com o tema “Junho”. Foram doados ao Cempa cerca de 30 quadros, só nessa exposição. Todos foram queimados. Segundo a diretora Wilma Anderi Fanuchi, o prejuízo material, na época, ficou em torno dos cinco milhões de Cruzados.
A primeira suspeita foi de que o incêndio teria sido causado por um curto circuito, mas durante a perícia técnica da polícia civil e bombeiros, essa hipótese foi descartada. No cômodo onde o fogo começou havia apenas um interruptor de luz, que ficava do lado oposto ao foco inicial do incêndio. Toda a fiação foi examinada e nada de irregular foi encontrado. No relatório assinado pelo delegado Carlos Eduardo Pinto, datado de 15 de julho de 1987, ficou claro que o incêndio foi criminoso, causado por uma substância inflamável, provavelmente em chamas, atirada sobre algum material de fácil combustão, que alimentou rapidamente o fogo. Várias testemunhas foram ouvidas, mas sem nenhum indício ou suspeita do autor do crime. Até hoje o caso não foi solucionado.
| A RECONSTRUÇÃO |
A tristeza ainda era grande e o futuro incerto, mas era preciso recomeçar. A união dos alunos, professores, funcionários do Conservatório e da comunidade foi fundamental na reconstrução da escola. Uma semana após o incêndio, os alunos do Cempa estavam espalhados pela cidade, em lugares diferentes e inesperados. Escolas, casas e barracões se transformaram em salas de aula. A direção da Escola Estadual Monsenhor José Paulino emprestou um galpão e oito salas no horário noturno para o Conservatório. A antiga Escola de Comércio também cedeu algumas salas e alguns professores emprestaram cômodos em suas casas para que as aulas não parassem.
Parte das atividades do Cempa voltou para antiga sede na Praça João Pinheiro. A prefeitura renovou o contrato de aluguel do imóvel, reformou um galpão da casa e construiu quatro salas de aula. O espaço ainda era pequeno para os 1.539 alunos e 38 funcionários do Conservatório. Para piorar a situação, faltava de tudo, desde materiais como lápis e papel até instrumentos.
Diante do caos era necessário mais força e envolvimento de todos. Iniciaram-se, então, as campanhas para aquisição do que havia sido destruído. Grande parte dos materiais foi reposta naquele mesmo ano. Além das festas que foram feitas para angariar dinheiro, a empresa Refinações doou um piano.
A Associação do Médio Sapucaí também se propôs a fazer uma campanha entre empresários do comércio e das indústrias para arrecadar fundos para o Cempa. O dinheiro doado foi revertido para a compra de violões, cordas, arcos e outros materiais. Aliás, a escola recebeu doações de todos os tipos, até pedaços de borrachas ofertados por crianças; pessoas ligavam ou escreviam cartas de várias partes do país para dar força aos membros do Conservatório. Uma conta chegou a ser aberta pela diretora Wilma Andere Fanuchi no banco do Brasil para receber doações. A imprensa da cidade também fez a sua parte, publicando, constantemente, pequenos textos sobre o Cempa.
Uma das preocupações de Wilma Andere Fanuchi antes de deixar a direção da escola foi deixar um projeto pronto para a reconstrução do prédio. O projeto foi doado pelos arquitetos Marcos Vilas Boas e Roduvaldo Vono Carneiro, projeto este que sofreu algumas modificações quando se iniciaram os trabalhos de restauração do prédio. Após o projeto arquitetônico também foram elaborados projetos hidráulicos, elétrico e de telefonia.
Em 1988, a professora de História da Música Sarah Lúcia Requejo Amaral, mais conhecida como Sarita assumiu a direção do Cempa. A restauração do prédio na Francisco Sales ocorreu na sua gestão. Para isso foram realizadas muitas festas.
Foi nesta época que surgiu uma das festas mais tradicionais do Conservatório, a Caipirarte. Toda a renda obtida nas festas e campanhas era revertida para a reforma do prédio. Somente em 1993, seis anos após o incêndio, o Estado liberou a tão esperada verba para que a obra fosse concluída.
A reinauguração do Cempa aconteceu no dia 10 de setembro de 1994 com uma grande festa, contando com a presença de políticos de toda a região, empresários, religiosos, alunos, ex-alunos, professores, funcionários e a comunidade em geral. Houve muitas homenagens, um encontro de Bandas, benção de todos os cômodos, exposição de quadros doados por artistas da cidade na galeria João Eduardo Dutra (saguão da escola) – quadros que hoje estão espalhados por todo o Cempa - e apresentações de todos os Grupos do Conservatório.
Com a restauração, algumas mudanças foram realizadas no prédio do Conservatório procurando-se preservar o possível as características do original. No auditório a posição do palco foi invertida. As antigas cadeiras cederam lugar a poltronas adquiridas do extinto Cine Eldorado de Pouso Alegre e a sala das supervisoras foi transformada em camarim. Na sala de direção que ficava no segundo andar foram construídos os banheiros dos professores e a entrada original do prédio, que ficava entre a secretaria e a biblioteca, deu espaço para a nova sala da direção.
No ano de 1997, através da Lei nº 3.300/97, o prédio da rua Francisco Sales, onde o Conservatório Estadual de Música Juscelino Kubitscheck de Oliveira funciona atualmente, foi tombado pelo Patrimônio Histórico e Cultural de Pouso Alegre.
Fonte: “Memórias que um incêndio não destruiu”
Última atualização (Ter, 30 de Março de 2010 17:15)


