Num guentei, Sô Bené!...
Por: Benedito Franco
Em frente à minha loja, o boteco do Charazinho. Uma atração para toda a cidade, com seu bem temperado bife acebolado de fígado de boi.
Numa panela bem quente, frigideira, com uma grossa crosta preta por fora, e quase outro tanto por dentro, o Chará colocava o bife de fígado, caprichava na cebola, sal e pimenta do reino. Este conjunto de coisa gostosa exalava um cheiro de atrair quem passasse pela rua.
De quando em vez, argumentava com o Charazinho que ele poderia cooperar com os bebuns – e mais ainda com suas Famílias - recusando-lhes algumas pinguinhas quando estivessem bambos e já caindo. Eis a resposta: “- Quanto antes morrer, melhor! Menos trabalho dará para a Família”.
Para o dono de um buteco:
- Ô Cara, você vende a pinguinha muito barato. Desse jeito você leva prejuízo...
- Qui nada, Sô Bené...A coisa funciona assim: uma pinguinha, eu cobro uma; duas pinguinhas, eu cobro duas; três pinguinhas, como o cara já começa a num pensar, eu cobro quatro; quatro pinguinhas, eu cobro seis; cinco pinguinhas, eu cobro dez; seis... aí, o cabra já num sabe de nada, eu cobro doze... ou melhor: cobro o tanto que quero. E assim vou ganhando.
- Ô rapaz, hoje, 24 de dezembro, você deveria estar lá com seus filhos e se encontra aqui no buteco do Chará, bêbado e dando vexame. Some daqui e vá servir de Papai Noel na sua casa!
- Não Sô Bené! Vô é matá o Paulo com este revolve aqui – mostrou-me o revolver – pois ele passou a mão na poupança da minha muié...
- Que matar que nada, rapaz! Dê este revolver aqui! – Tomei-lhe o revolver e guardei-o no cofre.
Dias depois, apareceu o Paulo. De cara fechada, mas dando-lhe um sorriso maroto:
-Ô Paulo... Você, um pai de Família, como é que vai fazer uma coisa dessa? Passar a mão na poupança de sua vizinha?
- Ô Sô Bené, eu fico sozinho no meu buteco e, toda hora, vem ela rebolar, com aquele trem grande, pra cima de mim. Num guentei: oiei pra um lado, oiei pru outro, e meti a mão!
- É... você faz suas besteiras e eu tenho que me meter em frente a um revolver para lhe salvar... Faz isso não!... Sua patroa é braba!!
- Sô Bené... ninguém guenta umas coisa dessa!
E lá se foi o Paulo sorrindo, sentindo-se o máximo do machão!...
Num sábado, vi o Chiquinho, meio bêbado, no buteco do Charazinho. Chamei-o.
- Ô rapaz, como é possível você largar seus meninos e vir para o buteco e ficar nesse estado deplorável?... Vá pra casa, que sua mulher te espera.
- Ô Sô Bené... é que eu troquei a casa pru ôtra muito mió e estô comemorano! – Para construí-la, comprou muita coisa em minha loja.
- Chega de comemoração e vá embora!
- Pera aí, Sô Bené. Pera aí!
No sábado seguinte, aconteceu o mesmo. Mais uma vez chamei o Chiquinho, e meio bravo, disse-lhe que fosse para casa. Ao fechar a loja, e vendo que ele estava mais bêbado ainda, fui lá e ele prometeu-me estar de saída.
Na segunda-feira soube que o Fábio do Sô Mané tinha feito uma desgraça, exatamente no passeio em frente à minha loja.
Aconteceu o seguinte: o carro do irmão do Fábio emperrou em frente ao buteco do Charazinho. Apareceram os Zés-Prontinhos para empurrar – o Chiquinho também se prontificou, mas como estava muito bêbado, em vez de ajudar, atrapalhava. O Fábio perdeu a paciência com ele e foi empurrou-o até o outro lado da rua, jogando-o contra a parede. Como o Chiquinho se levantou, dizendo-lhe palavrões e afirmando que iria empurrar o carro assim mesmo, o Fábio do Sô Mané puxou o revolver e lhe deu três tiros no peito.
Buteco é isso...
